Relação das universidades com o setor produtivo: problema ou solução?

A tríade universitária é formada pelo ensino, pesquisa e extensão. O ensino objetiva formar profissionais capazes para à demanda social. A pesquisa é uma investigação metódica realizada para solucionar um problema social. As atividades de extensão buscam melhorar as condições de vida de uma comunidade.

Nos países desenvolvidos, existe a valorização das universidades na procura de novos conhecimentos. Segundo o professor Jankevicius, as pesquisas têm a função de reduzir a distância do que é ensinado e a fronteira do conhecimento. O referido docente afirmou que na investigação de uma nova gnose, é necessário que o pesquisador domine a fronteira do conhecimento da sua área de atuação.

O Brasil não pode, exclusivamente, comprar tecnologia no exterior e produzir no país. A nossa soberania tecnológica depende de desenvolver o nosso conhecimento através da pesquisa. Felizmente, o projeto de “Lei de Conversão” foi aprovado pelo senado federal. Assim, legalizou-se o relacionamento das universidades públicas com às empresas privadas. As fundações das universidades federais estão autorizadas a assinar contratos com o setor privado. Todavia, existe uma questão ética: existe um limite de aproximação entre às empresas e as universidades?
O professor Carlos Alberto Gonçalves ressaltou “que a autonomia da universidade, nos rumos da pesquisa e sua divulgação, deve ser preservada”! Talvez este seja o limite!
Em relação à ética, aproveito para citar a definição concisa e brilhante, do sublime filósofo, escritor, educador e professor universitário, Mario Sergio Cortella:

“Ética é o conjunto de valores e princípios que você e eu usamos para decidir as três grandes questões da vida, que são: “quero”, “devo” e “posso”?

Quais são os princípios que uso:
-Tem coisa que eu quero, mas não devo!
-Tem coisa que eu devo, mas não posso!
-Tem coisa que eu posso, mas não quero!
Ser ético é fazer aquilo que você quer.

Você tem paz de espirito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o que você pode e o que você deve fazer. ”
A interação público-privada tornará as pesquisas mais dinâmicas, possibilitando que os resultados cheguem mais rapidamente ao mercado consumidor, com consequente benefício social. Pesquisa e extensão na sua plenitude. Contudo, os mecanismos autorregulatórios universitários necessitam de revisão para agilizar a parceria público-privada.

Neste contexto, a empresa FGM procurou a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), para o desenvolvimento de uma pesquisa longitudinal prospectiva randômica para avaliar o sucesso do sistema Arcsys, em todas as formas de edentulismo. Paralelamente, nos apresentou a invenção e as inovações do sistema mencionado. Torna-se pertinente conceituar “invenção” e “inovação”! A “invenção” é a descoberta de algo novo (inédito), para solução de um problema. A “inovação” faz algo diferente, a partir de um produto existente.
O empirismo caracteriza-se pelo aleatório. A ciência, antagonicamente, pela capacidade de repetição metódica dos resultados. Logo, está amparada pelos estudos longitudinais prospectivos randômicos. Neste cenário, o pleito da FGM à UFSC foi ao encontro do sublime numa parceria universidade-empresa! Desde a criação da nossa pioneira pós-graduação stricto sensu (primeiros mestrado e doutorado acadêmicos, na área de concentração de Implantodontia, no território nacional), jamais tinham nos procurado para o intuito de avaliar metodicamente o desempenho de um sistema.

Delineamos uma metodologia, com critérios de inclusão e exclusão, que está aplicada em estudos multicêntricos (Chile e Guatemala). Os resultados (n=477) foram incontestáveis. Esta pesquisa consolida um sistema inventivo e inovador:

-03 Implantes perdidos (concentrados em pacientes com doenças sistêmicas).
-18,9% dos pacientes foram classificados como portadores de doenças sistêmicas.


-69,9% de componentes protéticos angulados.
-Nenhuma soltura do componente protético.
-Nenhuma fratura do componente protético.
Atualmente, o desenvolvimento tecnológico e o

acesso à informação nos inundam de novas ideias que poderão se transformar em inovação, pois esta é a exploração com sucesso destas inéditas criações. Neste contexto, a Implantodontia não permanece incólume! Necessita de inovações!

Alguns clínicos são refratários às mudanças de conceitos impostos pelas inovações, cultuam o status quo.
Passam à margem das inovações! Relutam! Rechaçam! Resistem! Correm o risco de serem ultrapassados pelos proativos!
Qual é a sua atitude frente a um sistema que permite a customização do intermediário protético; possua um cone Morse (friccional); apresente um implante com geometria híbrida passível de ser utilizada em todas as densidades ósseas; possibilite o arbítrio da fresagem única ou escalonada; tenha um tapa de cobertura de silicone de uso médico irrestrito; utilize cicatrizador e transferente multifuncionais de PEEK?
Talvez a reação seja o preconceito (juízo pré-concebido baseado no desconhecido, isto é, sem exame crítico). Eu confesso constrangido, aos leitores, que este foi meu comportamento. Fiz algumas inquisições iniciais:

– A customização irá fragilizar o intermediário protético?
– A fresagem única aumentará o calor friccional?
– O cone Morse (friccional) é estável?
– Em resumo, por que eu tenho que mudar?

A minha ignorância sobre o fenômeno do “encruamento” era absoluta. Este promove o endurecimento por deformação plástica, pela modificação da estrutura cristalina (aproximação dos cristais) que levará aumento da resistência do metal. Pausa para reflexão! A customização (inclinação) do intermediário protético, dentro dos parâmetros utilizados (0° a 20°), aumentará a resistência do mesmo? Sim, amplificará! Ensaios mecânicos corroboraram com esta afirmação!

Com a resposta ao meu preconceito, seria caturrice não observar os benefícios desta customização no planejamento das reabilitações implantossuportadas!

Em continuidade, eu cria no dogma (que por definição é de caráter indiscutível) da necessidade de fresagem escalonada para minimizar o calor friccional gerado. Propor a única estaria próximo à heresia. Sabe-se que a extensão da zona de necrose, promovida pelo calor friccional, é determinante para a obtenção da osseointegração. Existe uma relação inversamente proporcional. Todavia, esqueci o princípio fundamental da ciência: o questionamento!

A crença na verdade absoluta inquestionável é nociva e inconcebível! Minha miopia foi curada pela Engenharia de Materiais da Universidade Federal de Santa Catarina, que evidenciou o inverossímil como verossímil e factível. A fresagem única, com as fresas portadoras de características peculiares, não incrementou o calor friccional. Fui vencido pelas evidências! Entretanto, o livre arbítrio foi respeitado, pois o usuário do sistema pode escolher pela única ou escalonada.


E o cone Morse (friccional) versus conexão cônica com parafuso passante? Esta última, paradoxalmente vai de encontro com o conceito advogado, em 1864, por Stephen Ambrose Morse. No qual asseverou o princípio mecânico da conexão cônica, com um cone (macho) justaposto no interior de uma cavidade cônica (fêmea) de pequeno ângulo (aproximadamente 3°). A justaposição promovida pelo imbricamento mecânico da fricção (“solda fria”) promove uma união estável do sistema, sem a utilização de parafuso passante. O aumento da estabilidade e o efeito anti-rotacional nas conexões cônicas são decorrentes da maior área de contato entre o intermediário protético e o implante. A conexão cônica promove um contato íntimo (atrito) entre o intermediário protético e o implante. O parafuso passante não é o principal responsável pela fixação e estabilidade do sistema. Logo, nas conexões cônicas observam-se taxas menores de afrouxamento ou fratura do parafuso passante (em comparação com as hexagonais). Contudo, o mesmo ainda é passível de afrouxamento ou fratura (principalmente nos intermediários angulados). As incidências destes problemas são diretamente proporcionais às divergências com a pequena angulação proposta por Morse (aproximadamente 3°).

Em contraste, na conexão friccional do cone Morse (sem o parafuso passante), as forças mastigatórias (função) ativam e asseguram a estabilidade do intermediário protético. A força de união entre os componentes do sistema é proporcional à força de inserção.

Na conexão friccional, a função promove aumento da retenção do sistema.

Minhas convicções foram alteradas. As evidências eram incontestáveis!

As vantagens notórias inerentes do sistema, a geometria do implante, tapa de cobertura de silicone e o cicratizador e transferente multifuncionais de PEEK, vão ao encontro da versatilidade e simplicidade. Características desejadas e incomuns. O conceito do menos é mais é muito difícil de ser aplicado. Como proferiu Leonardo da Vinci, o minimalismo é o último grau da sofisticação!
A geometria do implante do sistema é absolutamente contemporânea, com característica híbrida, formato cilíndrico com ápice cônico, abaixo da zona do encaixe do intermediário protético apresenta paredes paralelas e roscas menos profundas, frisos laterais helicoidais diametralmente opostos com face cortante, roscas trapezoidais progressivas, câmaras de cicatrização e porção apical esférica não cortante. Em síntese, o implante possui facilidade de inserção, geometria favorável às estabilidades primária e secundária e, é passível de ser utilizado em todas as densidades ósseas.

O tapa de cobertura friccional de silicone biocompatível (expande no interior do cone) permite o seu corte, com lâmina de bisturi, na altura desejada. Assim, diminuindo a probabilidade de exposição.
O cicatrizador multifuncional de PEEK (polímero biocompatível) é facilmente personalizável, proporciona a cicatrização da mucosa peri-implantar e pode ser um componente protético provisório (permite aplicação direta de resina). O tranferente multifuncional de PEEK exerce a função de transferente, protetor de pilar e cilindro provisório. Logo, ambos expressam a filosofia fundamental do sistema: versatilidade e simplicidade.
Anteriormente, mencionei que a Implantodontia carece de inovações. Em seguida apresentei novas ideias exploradas com sucesso. Então, por que mudar? Porque mudar é preciso!

 

O Prof. Dr. Ricardo Magini é Professor titular da UFSC, Especialista, Mestre e Doutor em Periodontia pela FOB-USP e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Odontologia, área de concentração em Implantodontia, da UFSC.

 

Por. Prof. Dr. Ricardo Magini

FGM Interativa

Adicionar comentário