Utilização de um novo sistema de implantes para confecção de prótese inferior tipo overdenture

Prof. Rodrigo Melim Ferreira, Profª. Joseane Silva, Prof. Ricardo Henrique Debarba, Prof. Dr. Bernardo Born Passoni, Prof. Dr. Ricardo de Souza Magini, Prof. Leonardo Vieira Bez e Prof. Dr. César Augusto Magalhães Benfatti.

A reabsorção óssea alveolar em pacientes anteriormente submetidos à extração dental é uma das situações mais desafiadoras, quando se trata do planejamento em implantodontia, pois, além de crônica, a perda óssea vertical e em espessura tendem a proporcionar um rebordo mais estreito e geralmente afilado.1,2 Consequentemente, o edentulismo teve como principal forma de reabilitação, a utilização de próteses totais – que em muitos casos acabavam sendo limitadas devido às reabsorções ósseas, proporcionadas pela perda dental da anatomia mandibular. Além disso, muitas vezes os pacientes edêntulos sofrem com a perda de autoestima e qualidade de vida.1,3

Para solucionar problemas relativos à retenção de próteses totais, protocolos cirúrgicos são constantemente estabelecidos para as reabilitações em implantodontia, sobretudo após os estudos sobre osseointegração de Branemark a partir da década de 60.3,4

Os estudos da época foram capazes de descrever a bosseointegração em 91% dos implantes, além de uma estabilidade de 100% após 5 a 9 anos de longevidade, conferindo à técnica, segurança e relevância para as reabilitações orais.3

Com isso, mais de 40 anos desde o surgimento da osseointegração, o profissional passa a contar com inúmeras alternativas de tratamento para edêntulos totais, dentre elas o tratamento com overdentures ou sobredentaduras, igualmente capazes de proporcionar a reabilitação protética e individualizada.3,5

Quando se trata da escolha entre overdentures e próteses totais fixas, alguns fatores relacionados ao planejamento em implantodontia devem ser considerados (DeBoher, 1993)6. Dentre eles, o plano de tratamento deve ser baseado em suas condições físicas e psicológicas, pois as overdentures apresentam menor complexidade para manutenção da higiene oral, devido a possibilidade de sua remoção; menos envolvimento cirúrgico, quando se trata de paciente medicamente debilitados; e os custos que podem ser economicamente mais viáveis, quando comparados a protocolos cirúrgicos com próteses totais fixas sobre implantes. O abalo psicológico imposto pela perda dos dentes também é um dos principais motivos que leva os pacientes a escolherem a reabilitação fixa tipo protocolo como primeira opção de reabilitação oral.

Assim, o objetivo desse relato de caso é apresentar alguns aspectos importantes durante a reabilitação com um novo sistema de implantes em mandíbula edêntula, através da apresentação de um caso clínico reabilitado com prótese tipo overdenture.

 

FICHA

Paciente do gênero masculino, 55 anos de idade.

A QUEIXA
Baixa estética dos elementos inferiores e das próteses removíveis, além da baixa eficiência da função mastigatória.

ANAMNESE
Paciente se encontrava apto e motivado ao procedimento cirúrgico-protético.

PLANEJAMENTO

O plano de tratamento aprovado incluiu a substituição da prótese total superior e a exodontia dos elementos inferiores remanescentes (33, 41 e 42) com concomitante regularização do rebordo e instalação de dois implantes Arcsys entre forames, para suporte dos pilares tipo overdenture, guiados pelo planejamento reverso com guia multifuncional.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo masculino, leucoderma, procurou atendimento odontológico para reabilitação protética da arcada inferior com implantes. Sua queixa principal estava na arcada inferior devido à estética dos dentes remanescentes e da prótese parcial removível. Durante a anamnese foi constatado que o paciente possuía condições favoráveis de saúde para a reabilitação com implantes. No exame clínico (Fig. 1 e Fig. 2) observou-se apenas os elementos 33, 41 e 42, e utilizava uma prótese parcial metálica removível correspondente aos dentes inferiores ausentes. Após a realização da tomografia computadorizada cone bean, constatou-se que existia altura e espessura óssea suficiente para instalação dos implantes.

O planejamento reabilitador proposto consistiu na realização da extração dos dentes remanescentes (elementos 33, 41 e 42), regularização do rebordo ósseo, colocação de dois implantes tipo cone morse (Arcsys, FGM, Brasil.) entre forames, na região dos dentes 33 e 43, para posterior na instalação de prótese tipo overdenture.

Foi realizado o planejamento reverso seguindo as etapas de: moldagem inferior dos dentes remanescentes e duplicação da prótese total superior; prova do rodete de cera para reconstituição fisionômica e determinação da dimensão vertical; e posterior prova dos dentes em cera. Após essas etapas, um guia cirúrgico (Fig. 3) com dimensões adequadas para o caso foi utilizado para o correto posicionamento tridimensional dos implantes.

O primeiro passo cirúrgico após anestesia consistiu na exodontia (Fig. 4) dos 3 elementos dentais restantes no arco inferior. Na sequência, a incisão linear com lâmina de bisturi 15C foi realizada sobre a crista do rebordo inferior, e o descolamento do retalho englobou a exposição dos forames mentuais – assim foi possível observar o campo operatório de modo direto e com maior segurança para fresagem. Em seguida, foi realizada a regularização do rebordo (Fig. 5) com broca cirúrgica maxicut em peça reta, para proporcionar maior facilidade durante a instalação dos implantes na mesma altura (platô), e um rebordo justaposto a mucosa com um mesmo formato em toda a sua extensão.

A perfuração para colocar os implantes foi iniciada pela broca lança, devido à conformação mais corticalizada do osso. Em seguida, foi utilizada a broca final associada ao limitador de profundidade, o que conferiu segurança e agilidade durante o trans-operatório. Dessa forma, os dois implantes (Fig. 6) anteriormente preconizados durante o planejamento, foram instalados nas regiões dos dentes 43 e 33 com torque de 60N em ambos implantes.

Após a instalação os implantes foram protegidos com a tampa de cobertura friccional (Fig. 7) confeccionada em silicone biocompatível, disponibilizado pelo sistema, e a seguir foram realizados pontos simples (Fig. 8) para sutura em toda extensão da incisão, com o intuito de evitar fenestrações e cicatrização por segunda intenção. Na sequência, foi instalada uma prótese total removível imediata, a qual já havia sido previamente
confeccionada, nas etapas de reconstituição fisionômica e prova dos dentes em cera.

Decorridos noventa dias, o paciente foi submetido a uma segunda etapa cirúrgica de reabertura, onde foi removido o tapa de silicone e, por meio do medidor transmucoso, a altura dos pilares protéticos foi selecionada.

Para o caso, dois pilares protéticos friccionais para overdenture, com altura 4,5mm de transmucoso, foram selecionados. Posteriormente se procedeu a secagem interna das paredes do implante e, de acordo com as recomendações do fabricante foi realizada a ativação dos pilares com 3 batidas do martelete (Arcsys, FGM, Brasil) no longo eixo.

A utilização de resina acrílica atrelada a um procedimento de exposição tecidual (durante a cirurgia de instalação dos implantes ou em sua reabertura) exigirá especial atenção quanto à proteção dos tecidos incisados, a fim de evitar o contato do produto com essas estruturas e planos. Do contrário, se desencadeará um processo inflamatório localizado de dolorosa resolução. Esse fato justifica a cobertura da região através da utilização de um fragmento de lençol de borracha entre a mucosa e a cápsula, mas sem a interferência do pilar (o fragmento é perfurado e  adaptado no attachment).

Previamente ao procedimento de captura das cápsulas, foram estabelecidos pontos de referência na face oclusal dos dentes com o intuito de guiar uma oclusão. O posicionamento dos pontos foi em forma de triângulo, para estabilizar o encaixe entre próteses.

Para captura dos pilares protéticos foram instaladas cápsulas sobre os mesmos e suas correspondentes regiões de posicionamento (na face inferior da prótese). Após a prova de passividade entre as cápsulas e os nichos de assentamento da prótese, procedeu-se o preenchimento unilateral com resina acrílica ativada quimicamente, para só então reposicioná-la sobre a cápsula de mesmo lado. Repetiu-se o processo do lado oposto e após a acomodação da prótese sobre os conjuntos intermediários, o paciente foi instruído a ocluir até a total presa do material. Foram realizados acabamentos com fresas maxicut nos excessos de acrílico e polimento com borrachas.

Assim, foi possível proporcionar ao paciente uma prótese mucoimplanto- suportada. Porém, é importante ressaltar a importância das consultas periódicas para preservação e manutenção da prótese tipo overdenture retido por implantes, uma vez que os anéis de borracha presentes na face interna da cápsula sofrem com o desgaste natural que ocorre por seu ciclo de utilização.

CONCLUSÃO

As dificuldades encontradas para uma reabilitação protética mandibular são um desafio na rotina clínica, principalmente em pacientes idosos, pois a disponibilidade óssea é limitada para a confecção de próteses fixas sobre implantes. Overdentures retidas por implantes são uma técnica eficaz e capaz de reestabelecer estética e função com a possibilidade de redução do tempo clínico necessário entre as etapas envolvidas. Ao optar pela colocação de um número reduzido de implantes, quando comparado às próteses fixas sobre implantes, os custos financeiros podem ser mais acessíveis, proporcionando maior facilidade para manutenção da higiene oral.

REFERÊNCIAS

1. Xie Q, Wolf J, Tilvis R, Ainamo A. Resorption of mandibular canal wall in the edentulous aged population. J
Prosthet Dent 1997;77:596–600
2. Atwood DA. Some clinical factors related to rate of resorption of residual ridges J Prosthet Dent, 12
(1962), pp. 441-450
3. Adell, R., Brånemark, P. I., Lekholm, U. et al. A 15 year study of osseointegrated implants in the treatment of
the edentulous jaw. Int. J. Oral Surg., v. 10, p. 387-416, 1981.
4. Adell, R., Hansson, B. 0., Branemark, P .-I. & Breine, U.: lntraosseous anchorage of dental prostheses. II.
Review of clinical appro aches. Scand. J. Plast . ReCOilS//,. Surg , 1970: 4: 19-34.
5. Gallina C, Viegas VN. Overdentures e próteses fixas para reabilitação com implantes em maxila edêntula.
Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo 2007 jan-abr; 19(1):61-7
6. De Boer J. Edentulous implants: overdenture versus fixed. J. Prosthet. Dent. Apr. 1993; 69(4):386-90.
7. Mericske-Stern R. Treatment outcomes with implant-supported overdentures clinical considerations. J.
Prosthet. Dent. 1998 Jan; 79(1): 66-73.