Uma Nova abordagem para a técnica de clareamento dental em consultório

Paula Mathias, Letícia de Oliveira Saraiva

O clareamento dental é um procedimento estético cada vez mais utilizado na prática odontológica. A obtenção de dentes mais claros é uma solicitação estética comum dos pacientes, podendo ser executada isoladamente – quando o tratamento estético requer apenas modificação de cor – ou em associação com outros procedimentos restauradores ou de reposicionamento dental, como o tratamento ortodôntico. Muitas são as técnicas e materiais indicados para o clareamento dental, sendo as técnicas realizadas ou supervisionadas pelos profissionais, as mais seguras. Dentre essas técnicas, pode-se citar o clareamento caseiro supervisionado, o clareamento de consultório e a associação de ambas as técnicas. Os resultados de alguns estudos demonstram uma superioridade de obtenção de cor e de longevidade do clareamento caseiro supervisionado ou da associação da técnica caseira com a técnica de consultório.

Entretanto, a efetividade de uma técnica clareadora deve levar em consideração o perfil do paciente ou cliente que receberá o tratamento. A técnica clareadora caseira, por exemplo, é dependente de uma ativa e disciplinada participação do indivíduo. O longo período de tempo de uso dos agentes clareadores associado à sensibilidade dental exacerbada ou à presença de desconforto gengival, pelo contato com o agente clareador, pode levar à descontinuidade do tratamento dental caseiro supervisionado. Assim, pacientes que apresentam resistência ao uso de agentes caseiros ou que não possuem disciplina em sua utilização, são candidatos às técnicas de clareamento de consultório ou à associação deste com o clareamento caseiro.

As técnicas de clareamento realizadas em consultório utilizam peróxidos mais concentrados (20, 35 a 37%) e que podem ou não envolver a aplicação da luz, como fonte de energia, para a catalisação da reação química de oxidação. Esta reação é relacionada à quebra de macromoléculas em moléculas menores, e, portanto, capazes de refletir maior quantidade de luz, resultando em uma estrutura mais luminosa, ou seja, mais clara.  Estudos laboratoriais e clínicos têm demonstrado a inexistência de ação das fontes de luz ou um efeito muito limitado sobre a velocidade de decomposição do agente clareador e sobre o resultado do branqueamento dental.

Além do questionamento acerca da efetividade do uso da luz como agente catalisador da reação de clareamento, alguns trabalhos indicam a existência de efeitos indesejáveis associados à sua aplicação. As fontes de luz utilizadas para o clareamento de consultório (Luz emitida por diodo (LED), Laser, Luz halógena, lâmpada de arco de plasma) parecem emitir excessiva radiação ultravioleta ou na faixa do azul visível, tornando-se prejudicial aos olhos e pele do paciente, profissional e assistente, quando essas estruturas não se encontram devidamente protegidas. O aumento da temperatura intrapulpar, durante a aplicação da luz para o clareamento de consultório, também se constitui em outro fator de preocupação, já que esta elevação pode levar à irritação pulpar, especialmente quando estes valores se aproximam da temperatura crítica de 5,5oC. Assim, considerando a falta de evidências científicas da eficiência do uso de fontes de luz para o clareamento dental aliado à busca por um protocolo clareador mais seguro e simples para uso em consultório odontológico, produtos clareadores à base de peróxido de hidrogênio e que apresentam um sistema de catalisação química mais estável têm sido desenvolvidos. O objetivo deste artigo é descrever um caso clínico realizado com um produto clareador à base de peróxido de hidrogênio 35%, e que dispensa o uso de catalisadores externos, como fontes emissoras de radiação óptica.

Apresentação do Caso Clínico

Paciente (V.B.P.), 22 anos, sexo feminino, procurou tratamento odontológico estético com a queixa principal de insatisfação pela cor dos seus dentes. Ao exame clínico, observou-se alinhamento dental satisfatório e ausência de necessidades restauradoras. Após descrição das técnicas de clareamento dental, das suas vantagens e limitações, optou-se, em conformidade com a escolha da paciente, pelo clareamento dental de consultório, sem o uso de luz ativadora. Para a realização desta técnica, foi selecionado o peróxido de hidrogênio a 35% (Whiteness HP Blue Calcium – FGM), que foi utilizado de acordo com as recomendações do fabricante.

Na figura 1 observa-se a foto do sorriso inicial da paciente. Este tipo de registro tem uma importância grande para documentação e para comparação com a cor final alcançada, pós-tratamento clareador. Os dentes apresentam coloração ligeiramente amarelada com tons âmbar (marrons), observada em visão intrabucal (Figura 2). Após a realização de uma terapêutica básica que constou de raspagem e profilaxia profissional, a paciente foi submetida à primeira sessão de clareamento em consultório odontológico. Um afastador de lábios, bochecha e língua (Arcflex – FGM) foi posicionado, permitindo maior amplitude do campo de trabalho e aumentando a segurança de proteção dos tecidos moles da paciente, durante a aplicação do gel clareador (Figura 3). A utilização de afastador que também proporcione a manutenção da língua afastada da área de trabalho fornece maior segurança ao operador, evitando possíveis interrupções do paciente, ou acidentes causados por queimaduras de ponta de língua. A presença de apoios em borracha siliconada para dentes superiores e inferiores também fornece um conforto adicional ao paciente, especialmente por se tratar de sessões longas de 40 a 50 minutos de duração.

Uma das maiores queixas dos pacientes que se submetem ao clareamento de consultório é a sensação dolorosa aguda relacionada ao procedimento, e que, normalmente, é relatada durante a sessão de clareamento ou após a conclusão da mesma, mas ainda no mesmo dia da sua realização. Segundo recomendação do fabricante, a aplicação de gel contendo fluoreto de sódio e Nitrato de Potássio, durante cerca de 10 minutos, pode promover uma dessensibilização prévia. Assim, aplicou-se, com auxílio de pincel (Cavibrush – FGM), o Desensibilize FK2% (FGM) (Figura 4). Após 10 minutos, o excesso do gel foi removido com o auxílio de uma cânula aspiradora, os dentes foram lavados com jato de água da seringa tríplice e o campo foi secado.

Iniciou-se o isolamento do tecido gengival com a aplicação de protetor gengival fotopolimerizável (Top Dam – FGM). Este protetor deve ter coloração que contraste com a cor do tecido gengival e com a cor dos dentes, para que seja facilmente visualizado. O material deve, preferencialmente, ser dispensado com auxílio de seringas com pontas finas, facilitando a sua colocação na área cervical dos dentes, seguindo o contorno gengival e cobrindo a gengiva marginal e as papilas (Figura 5 e 6).  O fabricante recomenda que a camada de protetor gengival tenha 3 a 5 mm de largura, para cobrir toda a gengiva marginal e início da gengiva inserida, e 1mm de espessura, para que não seja facilmente deslocado. Após a sua aplicação, verifica-se por incisal, o contato do protetor diretamente com a estrutura dentária. Se o profissional enxergar algum tecido gengival entre a barreira e o dente, este deve ser coberto, antes da fotoativação do protetor (Figura 7). Após a fotoativação por cerca de 20seg, para cada grupo de 3 dentes, utilizando uma fonte de luz halógena (Optilux Plus – GNATUS), o protetor gengival deve ficar rígido e funcionando como uma barreira mecânica para evitar o contato do gel clareador com os tecidos gengivais.  Na figura 8, observam-se as arcadas superior e inferior com seus tecidos gengivais protegidos de mesial dos primeiros molares direitos à mesial dos primeiros molares esquerdos, isso porque, no sorriso inicial da paciente, pode-se visualizar um amplo corredor bucal. Ou seja, a definição de quais dentes devem ser clareados está na dependência do sorriso do paciente que solicita o tratamento.

O material selecionado para o tratamento, Whiteness HP Blue com Cálcio 35% (FGM), se apresenta em duas seringas distintas (uma transparente, que acondiciona o espessante e a outra com rótulo preto, e que contém o peróxido de hidrogênio) (Fig 9a). O uso do gel requer que os conteúdos das duas seringas sejam misturados e homogeneizados. Para viabilizar esta mistura, as duas seringas devem ser acopladas através de um conector, fornecido pelo fabricante no kit do produto (Fig 9b). Em seguida, inicia-se a mistura, empurrando-se os êmbolos das seringas alternadamente, por até 8 vezes. Após, a mistura deve, preferencialmente, ser deixada na seringa transparente, para que o profissional possua maior controle sobre a quantidade do produto que está sendo depositado sobre os dentes e o que ainda resta de produto para ser aplicado. O conector é removido da seringa transparente e uma ponta aplicadora deve ser inserida, para facilitar a colocação do gel clareador sobre a face vestibular dos dentes que serão clareados (Fig 10). O gel foi, então, aplicado na face vestibular de todos os dentes selecionados para o clareamento (Fig 11). A quantidade de gel presente na seringa de 1,2g é suficiente para uma única aplicação sobre as arcadas superior e inferior.  O gel na concentração de 35%, utilizado neste caso clínico, foi deixado em contato com os dentes por 40 minutos. Este tempo pode ser alterado pelo profissional, especialmente no caso de o paciente relatar sensibilidade exacerbada durante o procedimento. Durante este período de espera, o gel foi movimentado pelo profissional  para a remoção das bolhas que se formam pela liberação de oxigênio, e que inibem o contato direto do gel clareador com a estrutura dentária (Figuras 12 a e 12b). Essa liberação das bolhas pode ser feita com um pincel tipo Cavibrush ou até mesmo com a ponta aplicadora da seringa que contém o gel clareador.

Decorrido o período de 40 minutos, o gel foi removido utilizando-se uma cânula aspiradora descartável com a extremidade cortada, para ampliar o orifício de sucção da ponta aspiradora (Figura 13). Após a remoção do excesso do gel, procedeu-se a lavagem dos dentes e remoção de qualquer resíduo de gel presente na cavidade bucal.

Para esta paciente, foram sugeridas mais duas sessões de clareamento em consultório, já que além da não obtenção da cor de dentes desejada pela mesma, trabalhos também reforçam que a satisfação do paciente, que realiza o clareamento de consultório, é alcançada a partir da terceira ou quarta sessão de procedimento.

Assim, pode-se verificar nas imagens de controle, a cor alcançada na segunda sessão de clareamento de consultório, realizada após uma semana da primeira aplicação (Fig 15), utilizando a mesma técnica e material, e na terceira e última aplicação do agente clareador, feita uma semana após a segunda sessão clínica de clareamento (Fig 16). Ao se comparar as figuras 2, 14, 15 e 16, percebe-se o significativo aumento de luminosidade e redução da saturação das cores amarela e âmbar presentes nas imagens iniciais. Cabe ressaltar que, mesmo insistentemente questionada, a paciente não relatou hipersensibilidade dentária durante ou após nenhuma das três sessões clínicas de clareamento dental.

Após a terceira sessão, a paciente se mostrou satisfeita com a cor alcançada pelo tratamento. Para evitar os efeitos da desidratação dental, que podem intensificar a luminosidade dos dentes, resultando em uma aparência mais clara do que a alcançada pela técnica clareadora, a foto final do sorriso, para comparação com a cor inicial (Figura 1), foi realizada uma semana após o final do clareamento dental.

Conclusões

1- O clareamento dental de consultório pode ser realizado, com efetividade, sem a aplicação de luz.

2- Com a utilização de novos agentes clareadores, que dispensam a ativação por luz, foi possível se conseguir bons resultados de clareamento de dentes polpados em três sessões clínicas, sem relato de hipersensibilidade recorrente.

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