Restabelecimento de função e estética através de lentes de contato e facetas cerâmicas

Sandrina Henn Donassollo, Gisiane Calegaro Gonçalves Raugust, Lenon Raugust e Tiago Aurélio Donassollo
Sandrina Henn Domassollo- Especialista em Ortodontia;- Mestre e Doutora em Dentística (UFPEL-RS);- Professora (FASURGS-RS);- Coordenadora dos Cursos de Atualização e Especialização em Dentístca (FASURGS-RS).Gisiane Calegaro Gonçalves Raugust- Graduanda em Odontologia (FASURGS-RS).Lenon Raugust- Graduando em Odontologia (FASURGS-RS).Tiago Aurélio Donassollo- Mestre e Doutor em Dentística (UFPEL-RS);- Professor dos Cursos de Atualização e Especialização em Dentística (FASURGS-RS).

Paciente do gênero feminino, 45 anos de idade.

A QUEIXA

Dentes escurecidos, presença de diastema e formato em desarmonia.

ASPECTO INICIAL

Dentes anteriores superiores com alteração de cor e forma, além de restaurações insatisfatórias e presença de diastema.


 

INTRODUÇÃO

Atualmente tem aumentado a preocupação com o desenvolvimento de técnicas que permitam maior preservação de estrutura dental sadia, via preparos minimamente invasivos que são associados à tecnologia adesiva, proporcionando assim, maior durabilidade e reprodução semelhantes às da estrutura dentária1.

 

As restaurações cerâmicas apresentam a necessidade da confecção das peças fora da boca do paciente reaplicando as situações in vivo (moldagens ou modelos), por conseguinte é fundamental utilizar um protocolo que seja seguro e evite as distorções que podem comprometer o resultado final2.

 

As atuais lentes de contato dentais recebem este nome pois estão relacionadas a lentes de contato oculares, em virtude da fina espessura. Devido a isso, lentes de contato dentais, depois de cimentadas ao elemento dental unem-se mimeticamente a ele, tornando-se difícil a sua percepção2.

 

Já as facetas laminadas são confeccionadas com a técnica tanto indireta quanto direta. A diferença das facetas para as lentes está na espessura e na quantidade de preparo do elemento dental3.

 

Tanto para facetas ou lentes, devido à fina espessura das peças cerâmicas, a cor do substrato dental pode comprometer o resultado estético. Dessa forma dispõe-se de algumas técnicas para neutralizar a influência desse substrato, como clareamento prévio, maior desgaste da estrutura dental, cerâmicas com maior opacidade e variedades de cores de cimentos resinosos4.

 

Para a confecção das facetas laminadas são utilizados diversos sistemas cerâmicos, entretanto cada material possui sua característica óptica e mecânica. Em restaurações pouco invasivas com menores espessuras e em substratos com pouca ou nenhuma alteração de cor, cerâmicas mais translúcidas são a melhor opção. As cerâmicas feldspáticas convencionais podem ser utilizadas com excelentes resultados, no entanto as reforçadas por leucita ou dissilicato de lítio possuem melhores propriedades mecânicas e a possibilidade de estratificação para correções da estética, mesmo após a primeira prova na boca do paciente5.

 

Em virtude da dificuldade de execução e de alcançar um resultado estético e funcional satisfatório utilizando tratamentos distintos como lentes de contato, facetas, relatos de caso demonstrando as técnicas de execução e sucesso do tratamento, tornam-se extremamente relevantes na literatura.

 

RELATO DE CASO

 

Seleção do paciente

A paciente A.D.F, 43 anos, procurou atendimento queixando-se da coloração escurecida dos elementos 11 e 12 (Figura 1-4). Após exame clínico e radiográfico foi sugerido a realização de tratamento estético nos 4 elementos anteriores.

 

Planejamento Digital

O planejamento digital foi realizado a fim de determinar o novo formato e tamanho dos elementos. As fotografias foram manipuladas no programa Microsoft Power Point 2010 (MICROSOFT, EUA) (Figura 5).

 

 

Enceramento diagnóstico e mockup

Após o planejamento digital, o enceramento diagnóstico foi realizado (Figura 6). Para isso, a moldagem com alginato (Avagel, Dentsply, Brasil) seguida do vazamento com gesso especial (Durone IV, Dentsply, Brasil) foi realizada em ambas as arcadas. O enceramento foi moldado silicona de adição (Express XT 3M, ESPE, EUA) e uma guia foi confeccionada.

Resina bisacrílica (Protemp4, 3M ESPE, EUA) foi aplicada na guia e em seguida inserida sobre o elementos dentais. Após o tempo de presa, a guia foi removida e o paciente pode visualizar o tamanho e a forma que haviam sido planejados (Figura 7).

 

LENTES DE CONTATO E FACETAS

 

Preparo dos dentes

Nos elementos 11 e 12, foram realizados preparos para faceta. Para isso, um sulco de orientação com ponta diamantada 1112 (KG Sorensen, Brasil) foi realizado nas faces proximais e cervical. Após, um desgaste de aproximadamente 1 mm foi realizado em toda face vestibular e incisal com pontas diamantadas de número 2135, 2135F (KG Sorensen, Brasil) (Figura 8-9).

Nos elementos dentais 21 e 22, foram realizados preparos minimamente invasivos a fim de regularizar a superfície. A Figura 10 demostra os elementos dentais finalizados.

O planejamento digital foi aplicado sobre os preparos a fim de melhorar a comunicação com o laboratório (Figura 11).

 

Moldagem    

Previamente à moldagem foi realizada a inserção do fio retrator 00 (Pro- retract, FGM, Brasil) nos elementos a serem moldados. A moldagem foi realizada com silicone de adição em duas etapas. O registro da oclusão com cera sete foi realizado e enviado ao laboratório. As peças foram confeccionadas com cerâmica reforçada por dissilicato de lítio, na cor 2M1 (Figura 12).

 

Facetas Provisórias

A guia de silicona utilizada para o mock up serviu como base para confecção dos elementos provisórios. Estes foram construídos com resina bisacrílica (Protemp, 3M ESPE, EUA), que após sua presa final recebeu acabamento e polimento adequados para permanecer em boca até a cimentação das peças definitivas.

 

Testes de Cimentação

Após a confecção das peças, as mesmas foram testadas sobre os elementos dentais. Para isso, os dentes foram isolados com isolamento relativo e afastador. Cimento teste Try In (Allcem Veneer, FGM Brasil) na cor Opaque White foi aplicado na face interna dos elementos 11 e 22 e na cor A2 nos elementos 21 e 22, a fim de testar a posição e coloração das peças (Figura 13).

 

Preparo dos dentes

Após o teste da cimentação, os dentes foram condicionados com ácido fosfórico 37% (Condac 37, FGM, Brasil) por 30s (Figura 14). Lavagem abundante com água e em seguida seco com jato de ar. Após foi realizada a aplicação do adesivo (Ambar, FGM, Brasil) sobre toda a superfície, seguido de um jato de ar para evaporar o solvente (Figura 15). O sistema adesivo não foi fotoativado.

 

Preparo da Peças

Ácido fluorídrico 10% (Condac porcelana, FGM, Brasil) por 20 segundos foi aplicado na superfície interna das peças, em seguida lavado abundantemente (Figura 16). Após foi aplicado silano (Prosil, FGM, Brasil) com auxilio de um cavibrush por duas vezes (Figura 17), seguido da aplicação do adesivo sem fotoativar (Figura 18).

 

Cimentação definitva

Uma camada de cimento Opaque White  (Allcem Veneer, FGM, Brasil) foi aplicada sobre a face interna das peças dos elementos 11 e 12  e cimento na cor A2 (Allcem Veneer, FGM, Brasil) nos elementos 21 e 22 e em seguida posicionados sobre o elemento dental (Figura 19-20). O excesso do cimento de todas as faces foi removido com pincel (Figura 21) e fotoativado por 40 segundos por face.

 

Acabamento e Polimento e Ajuste oclusal

O acabamento foi realizado pontas diamantadas, F ou FF, 3070, 1190, 3118 (KG Sorensen, Brasil) (Figura 22) e o polimento pontas de borracha em formato de taças e discos abrasivos para cerâmica (EVE, Diapol, Brasil) (Figura 23).

A cimentação final imediatamente após a conclusão do caso pode ser visualizada na Figura 24.

 

DISCUSSÃO

A preocupação com a estética tem aumentado a procura por tratamentos em dentes anteriores. Em virtude da melhora dos materiais e técnicas adesivas, restaurações diretas de resina composta ou indiretas através de laminados cerâmicos minimamente invasivos tem ganhado espaço4, 6.

 

No entanto, um fator importante a ser observado em restaurações indiretas sem ou com preparo mínimo, é a cor do substrato. A fina espessura das peças cerâmicas determina que o substrato seja homogêneo, ou o resultado final pode ser comprometido. Para minimizar este problema, um  clareamento prévio ou maior desgaste da estrutura dental, cerâmicas com maior opacidade e diferentes cimentos podem ser utilizados4. Neste caso, por se tratar de dois elementos com alterações de cor, foi optado pelo maior desgaste da estrutura dental, a fim de possibilitar a confecção de uma peça mais espessa. Além disso, optou-se pela utilização de um cimento de tonalidade mais opaca, alcançando assim um resultado final satisfatório.

 

Para a cimentação de restaurações cerâmicas de pequena espessura, os cimentos resinosos fotoativados são os mais indicados por apresentarem maior controle durante a cimentação e maior estabilidade de cor6. Como dito anteriormente, a cor do cimento influenciará de forma significativa no resultado final. Neste caso, além da utilização de um cimento opaco, foi utilizado um cimento de cor A2 nos elementos com menor espessura da peça.

 

A escolha do cimento é de extrema importância. Assim, um cimento teste deve ser utilizado com o objetivo de testar a adaptação das peças, mas principalmente a cor. Como forma de predizer a cor ideal para cada caso, a melhor estratégia para a escolha do cimento é a utilização de pastas testes, como prova de cor, chamadas try-in 8. No entanto, quando há a necessidade de mascarar alterações de cor a utilização de diferentes cores de pastas deve ser realiza com muita atenção para evitar a escolha errada do cimento e alterar a cor final do tratamento2.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os laminados cerâmicos tipo lentes de contato, são indicados para pequenas alterações de cor e forma. Quando há a necessidade de mascarar alterações na cor do elemento, um preparo maior deve ser realizado. Além disso, a cor e a translucidez do cimento são de extrema importância para alcançar um resultado final satisfatório.

 

REFERÊNCIAS

  1. 1. HOLANDA, D. B. V.; VILAR, K.; BARROS, E. A. et al. Reconstrução de um sorriso por meio de plastia gengival, clareamento e facetas diretas. Clínica International Journal of Brazilian Dentistry. São José, v. 2, n. 3, p. 268-78, 2006.
  1. 2. CLAVIJO, V.; KABBACH, W. Restaurações indiretas em cerâmica – facetas sem preparo dental (lentes de contato). Clínica International Journal of Brazilian Dentistry.Florianópolis, v. 8, n. 4, p. 374-85, 2012.
  1. 3. RUZZARIN, F.; BROLIATO, G. A.; WOLWACZ, V. F. et al. Reabilitação estética com facetas laminadas de porcelana: relato de caso clínico. Clínica International Journal of Brazilian Dentistry. São José, v. 3, n. 2, p. 126-134, 2007.
  1. 4. REZENDE, M. O.; CARDOSO, P. C.; RODRIGUES, M. B. et al. Laminados cerâmicos minimamente invasivos. Clínica International Journal of Brazilian Dentistry.Florianópolis, v. 4, n. 3, p. 124-127, 2009.
  1. 5. BUSO, L.; FERREIRA, J. V. Visão clínica Facetas laminadas sistema empress esthetic. Clínica International Journal of Brazilian Dentistry. São José, v. 2, n. 3, p. 306-14, 2006.
  1. 6.CARDOSO, P. C.; CARDOSO, L. C.; DECURCIO, R. A.; et al. Restabelecimento estético funcional com laminados cerâmicos. Rev. OdontolBras Central, Goiás, v.20, n.52, p.88-93, 2011.
  1. 7. CARDOSO, P. C.; LUZ, C. A.; MAGALHÃES, A. P. R. et al. Facetas cerâmicas: como remover os excessos do cimento resinoso? Clínica – International Journal of Brazilian Dentisty. Florianópolis, v.10, n.2, p.214-225, 2014.
  1. 8. FIALHO, F. P. et al. Harmonização estética do sorriso com laminados cerâmicos. Clínica – International Journal of Brazilian Dentisty, Florianópolis, v.9, n.4, p.404-409, 2013.