Protocolo clínico para aplicação do selante de fóssulas e fissuras

Doutor Renato Herman Sundfeld, Doutor Daniel Sundfeld Neto, Doutora Laura Molinar Franco, Doutor Lucas Silveira Machado
Renato Herman Sundfeld: professor titular em Dentística, Departamento de Odontologia Restauradora, Faculdade de Odontologia de Araçatuba - UNESP / Daniel Sundfeld Neto: doutorando em Dentística, Departamento de Odontologia Restauradora, Faculdade de Odontologia de Piracicaba - Unicamp/ Laura Molinar Franco: mestranda em Dentística, Departamento de Odontologia Restauradora, Faculdade de Odontologia de Araçatuba - Unesp / Lucas Silveira Machado: pós-doutorando em Dentística, Departamento de Odontologia Restauradora, Faculdade de Odontologia de Araçatuba - Unesp

A cárie dental, definida como uma destruição localizada provocada pela ação bacteriana, ainda acomete boa parte da população, principalmente crianças e jovens adultos. Por ser considerada uma doença infecto-contagiosa, de caráter multifatorial, fortemente influenciada pelos carboidratos fermentáveis da dieta (por ex.: sacarose, amido), em algumas situações torna-se difícil o seu controle para que não provoque lesões na estrutura dental. A superfície oclusal corresponde a uma região altamente suscetível para o início da lesão, onde os seus sulcos, fóssulas e fissuras, representam um nicho propício ao seu desenvolvimento, tornando esta condição clínica agravada pela dificuldade de higienização nessa área (Fig. 1). De encontro com esses levantamentos, a lesão de cárie poderá iniciar-se nas fóssulas e fissuras logo após a erupção dos dentes, podendo, quando não prevenida ou tratada, levar à perda do elemento dental, com o passar do tempo.
Uma das formas de prevenção é representada pela obliteração mêcanica dos defeitos estruturais do esmalte dental, por meio da aplicação adequada de um selante de fóssula e fissuras resinoso, ionomérico ou ionomérico-resinoso, que têm demonstrado, de acordo com diversos estudos clínicos longitudinais, uma excelente, segura, duradoura e comprovada alternativa preventiva para evitar a instalação e avanço da doença, ocorrendo, dessa forma, um considerável controle da atividade cariogênica nesta região. Dessa forma, o objetivo deste trabalho é apresentar um protocolo clínico com comprovação científica, de uma técnica de aplicação de um selante resinoso de fóssulas e fissuras.

Protocolo clínico
A técnica seladora inicia-se pelo isolamento absoluto do campo operatório (Fig. 2), quando possível; seguido pela profilaxia dental com pedra-pomes e água. Devemos ressaltar a necessidade de aplicação da técnica minimamente invasiva para sulcos e fissuras com alterações cromáticas localizadas, por meio da aplicação de uma broca esférica carbide ¼ (KG Sorensen Indústria e Comércio Ltda, Barueri, São Paulo, Brasil) somente nos sulcos e fissuras com alterações cromáticas, previamente a realização do selamento oclusal (Fig. 3 e 4). A seguir, após a profilaxia (Fig. 5) é realizado o condicionamento do esmalte dental, em toda a superfície oclusal, com ácido fosfórico a 37% (Condac 37, FGM), na forma de gel, sob vibração, empregando-se, para tanto, uma sonda exploradora, pelo tempo de 30 segundos (Fig. 6). Após copiosa lavagem com água e secagem com jatos de ar (Fig. 7), o material selador (Prevent Selante, FGM) deverá ser aplicado em todos os sulcos e fóssulas com auxílio de uma sonda exploradora, sob vibração (Fig. 8). A fotopolimerização se fará pelo tempo de 20 segundos, empregando uma fonte de luz halógena ou led com intensidade luminosa adequada, com potência acima de 400 mW/cm² (Fig. 9). Quando necessário, deverá ser realizado o ajuste oclusal, em máxima interscupidação habitual, com o paciente sentado e com o plano oclusal paralelo ao solo, utilizando uma fita de carbono. Os contatos prematuros, quando existentes, deverão ser removidos com uma ponta diamantada de número 1014 (K.G. Sorensen), montada em alta rotação, sob refrigeração à água e ar, recebendo, em seguida, a ação de uma ponta de borracha abrasiva.

Discussão
De acordo com trabalhos clínicos de Sundfeld et al. em 1990; 1992; 1993; 2001; 2004; 2006; 2007 e 2010, para se obter comprovado sucesso clínico na realização do selamento dos sulcos e fissuras com um material selador, quer resinoso ou ionomérico resinoso, deveremos realizar inicialmente um criterioso exame clínico da superfície oclusal e radiografias interproximais; uma vez que os dentes considerados com boa indicação para o selamento das fósssulas e fissuras, deverão apresentar superfícies proximais clínico/radiograficamente hígidas, acompanhadas de sulcos e fóssulas considerados clínico/radiograficamente hígidos, ou seja, sulcos e fóssulas claros, sem alterações cromáticas. Entretanto, os que apresentam pequenas alterações cromáticas localizadas, como no presente relato de protocolo clínico, sugestivas ou não da presença de lesão cariosa incipiente, poderão receber a aplicação do selante apenas após a remoção dessas alterações, com emprego de uma broca esférica carbide ½ ou ¼ (K.G. SORENSEN), montada em alta rotação. Destaca-se que aqueles que evidenciam lesões cariosas extensas, atingindo todo sulco oclusal e/ou tecido dentinário, e que envolvam todas as fóssulas e fissuras, não estão indicados para a técnica do selante de fóssula e fissura.
Kramer et al., em 1991 e 1997, considera que os dentes recém-erupcionados são candidatos ideais para a realização do selante de fóssulas e fissuras. Além disso, acredita-se ser discutível o conceito de que dentes que não desenvolveram lesão cariosa até 2 anos após a sua erupção estão contraindicados para o selamento, uma vez que nessa condição clínica está sendo considerado apenas o fator maturação pós-eruptiva; entretanto, um indivíduo não está livre de desenvolver cárie de fóssulas e fissuras durante o decorrer dos anos seguintes, se levarmos em consideração os fatores higiene oral, anatomia oclusal, dieta, além dos fatores secundários e modificadores que determinam o desenvolvimento da doença. Salientamos que estes fatores podem reverter um quadro estabilizado de saúde oral, podendo até mesmo levar um paciente de baixo risco à doença cárie para um quadro clínico de atividade da doença.
Na oportunidade vale ressaltar que a aplicação incorreta dos princípios que regem a técnica do selamento tem sido apontada como o fator principal e decisivo para o fracasso dos selamentos realizados, salientando, ainda, que se o for realizar, faça-o corretamente, senão, não o faça!
Sundfeld, em 2001, ressaltou que o excelente comportamento clínico apresentado pelos selamentos oclusais avaliados em seu trabalho clínico longitudinal de 11 anos de análise, está alicerçado, principalmente, na técnica extremamente acurada a que foram submetidos, enfatizando, com veemência, que o material foi aplicado em esmalte dental condicionado, bem seco e não contaminado. Esse fato certamente colaborou com a considerável retenção dos materiais seladores empregados, uma vez que o condicionamento do esmalte dental foi realizado em toda superfície oclusal, impedindo, dessa forma, que o selante fosse aplicado no esmalte sem ser condicionado, fato que, sem dúvida alguma, proporcionaria o processo de infiltração marginal ao redor do selamento. Na ocasião, ressaltou ainda a ausência de perda total do material selador e de lesão cariosa ao redor dos selamentos realizados nessa pesquisa clínica longitudinal, independente do material selador utilizado, se era apenas resinoso, com ou sem flúor em sua composição.
Entretanto, é conveniente a realização de exames radiográficos interproximais periódicos, assim como o controle de forma enfática da higiene oral; bem como orientar o consumo inteligente da sacarose e de carboidratos fermentáveis para evitar a instalação da lesão nas superfícies proximais. Isto demonstra, claramente, que a cárie dental é uma condição multifatorial, onde cada fator tem sua função específica, sendo necessária a interação entre eles para que o processo carioso se inicie.
Dentro desse contexto, a realização do selamento oclusal, de fato, constitui-se em um avanço consideravelmente substancial na erradicação da cárie dental, nos defeitos estruturais do esmalte dental, oferecendo muitos benefícios, tais como: ausência de dor durante sua aplicação, boa aceitação clínica, além de ser considerado com um procedimento adesivo conservador.

Conclusão
Conclui-se que a aplicação de selantes de fóssulas e fissuras, mediante uma técnica adequada, constitui, incontestavelmente, um recurso eficaz e seguro na prevenção das lesões de cárie de fóssulas e fissuras.