Planejamento digital para previsibilidade e controle do tratamento reabilitador: relato de caso

Prof. Edwin Ruales

O conceito de sucesso no tratamento odontológico tem sofrido modificações ao longo do tempo. Nossos pacientes, além da busca pela reconstituição da função, buscam cada vez mais tratamentos estéticos. Como clínicos, o desafio está em mimetizar os detalhes de um dente natural de modo a proporcionar leveza e harmonia ao sorriso. A obtenção do sucesso clínico poderá ser entendido como a verificação de perfil de emergência apropriado e conformação de papilas associadas a uma resolução protética que mimetiza cores, contornos e texturas. Para Al-brektsson et al.,1 em 1986 o sucesso estava atrelado à sobrevivência dos implantes. Pouco depois, Smith & Zarb2 (1989) correlacionaram a importância da aparência estética das restaurações implanto-suportadas. Mais recentemente, Fürhauser et al.,3 (2005), sabendo dos desafios próprios do tratamento com implantes, desenvolveram o Pink Esthetic Score (PES), elevando a rigorosidade do conceito para avaliar o sucesso dos tratamentos na área estética.

Para obtenção de tais resultados, é imprescindível respeitar os princípios cirúrgicos e protéticos, além de compreender o tempo biológico. Assim, a adoção de métodos que diminuam quaisquer riscos de falha se faz necessária. O uso de guias cirúrgicos nos orienta quanto ao posicionamento e angulação adequada dos implantes, tornando nossa abordagem protética mais previsível4,5. A manutenção da crista óssea e, consequentemente, das papilas tem estreita relação com o espaço dente-implante e implanteimplante6,7. A introdução de implantes de conexão cônica tem tornado a manutenção da crista óssea mais previsível quando associada à técnicas cirúrgicas de manipulação tecidual8 e condicionamento por meio de restaurações provisórias que permitam perfis de emergência funcionais9, possibilitando a obtenção de vantagens mecânicas, estéticas e de saúde aos
tecidos moles.10
O uso de ferramentas de planejamento digital tem sido cada vez mais utilizado na Odontologia, pois permite que o clínico planeje integralmente cada caso, testando em diferentes momentos os resultados obtidos, reduzindo a distância entre a clínica e o laboratório de prótese dental. Ainda, permitem a compreensão do tratamento pelo paciente frente às possibilidades de resolução, minimizando a incorporação de erros no processo e aumentando a previsibilidade do tratamento reabilitador.11
Este artigo tem como objetivo discutir e demonstrar, a partir de um relato de caso, as possibilidades e desafios de um tratamento reabilitador envolvendo prótese sobre implante cone-morse friccional e restaurações em resina composta em dentes adjacentes.

FICHA
Paciente do gênero feminino, 34 anos de idade.

A QUEIXA
A paciente se encontrava insatisfeita com aprótese parcial removível que possuía, relatando constrangimento social e baixa eficiência mastigatória.

ANAMNESE
Durante a avaliação clínica, ratificou-se a adequada condição de saúde local e sistêmica. O biotipo gengival e a idade da paciente também permitiram estipular um prognóstico favorável à reabilitação com implantes.

PLANEJAMENTO
Por se tratar de uma região de elevada exigência estética, priorizou-se a reabilitação com o sistema Arcsys em razão de uma possível necessidade de angulação (mesmo que mínima). O diagrama digital permitiu nortear o contorno e tamanho dos dentes, favorecendo também a comunicação com o laboratório de prótese.

RELATO DO CASO
Paciente com 34 anos de idade, sexo feminino, leucoderma, boa condição sistêmica, apresentou-se no Centro de Ensino e Pesquisa em Implantes Dentários (CEPID), da Universidade Federal de Santa Catarina com queixa principal de ausência dos elementos 11, 12 e 22. Ao exame clínico (Fig. 1), constatou-se que além da ausência dos elementos dentários existiam restaurações insatisfatórias nos elementos 21 e 23. Após a obtenção das imagens tomográficas de feixe cônico (Cone Beam) e planejamento reabilitador digital (Fig 2), optou-se pela instalação de três implantes para suporte de próteses metalocerâmicas unitárias, além de restaurações diretas bde resina composta nos elementos 21 e 23. Um guia cirúrgico foi confeccionado e utilizado para a obtenção do posicionamento apropriado dos implantes.
Após os procedimentos de assepsia e anestesia local, foi realizada uma incisão linear com lâmina 15C, seguido do descolamento do retalho em espessura total. A sequência de fresagem para instalação dos implantes foi feita segundo a indicação da fabricante (FGM). Na região dos elementos 12 e 22, foram instalados dois implantes do sistema Arcys 3.3×13 mm e na região do elemento 21, um implante de 3.8×13 mm (Fig 3), todos instalados 3 milímetros infra-ósseos, cobertos com tampas de silicone (Fig. 4). A síntese dos tecidos foi realizada com pontos simples na intenção de um fechamento primário da ferida cirúrgica.
Durante o tempo de cicatrização e osseointegração, a paciente usou uma prótese parcial removível provisória. A técnica de reabertura preconizada neste caso foi a do rolo. No mesmo tempo cirúrgico foram instalados e ativados os pilares protéticos para próteses aparafusadas, realizada a sutura em colchoeiro vertical (Fig. 5) e confeccionadas as respectivas coroas provisórias sobre transferentes multifuncionais. Com a cicatrização dos tecidos e por meio de ajustes nas próteses provisórias foi recriada a arquitetura gengival da região baseada no planejamento digital (Fig. 6). Esse padrão periimplantar (Figs. 7 e 8) foi obtido por meio da personalização dos transferentes com resina acrílica. O caso foi finalizado com a instalação de três coroas metalocerâmicas e restaurações diretas em resina composta (Opallis – FGM) (Fig. 9).

CONCLUSÃO
Um planejamento apropriado, aliado ao conhecimento dos princípios cirúrgicos e protéticos, assim como o entendimento dos processos biológicos são fundamentais para a obtenção de resultados funcionais e estéticos com previsibilidade.